curso o caderno de receitas

Por que o bolo de fubá de sua avó é o melhor do mundo? E como valorizar o que se compartilha à mesa fortalece os laços familiares? A jornalista Mariana Weber está à frente nesta quinta (17), do workshop  “Comida de Vó” e com “gosto de infância”, com truques e receitas de família para preparar um almoço de Páscoa acolhedor. Será na escola de gastronomia Dedo de Moça, em São Paulo. O curso é um desdobramento do projeto O caderno de receitas, que ela iniciou em 2014 e que tem mais de 38 mil seguidores do Face.

 Por que você decidiu se dedicar a este tema? Há alguns anos, “sequestrei” o caderno de receitas da minha mãe, um dos objetos que eu mais cobiçava quando criança, e o deixei estacionado em uma estante de casa. No dia a dia era geralmente meu marido quem cuidava do fogão. Quando meu filho, hoje com 3 anos e meio, começou a se alimentar de algo além de leite, senti que era o momento de colocar aquelas receitas em prática. Queria transmitir para ele sabores que marcaram a minha infância e também me conectar mais com a minha mãe — cada receita é uma desculpa para ligar para ela, que vive em outra cidade. Aos poucos, percebi que aquilo poderia virar um projeto maior sobre comida e memória afetiva. Em agosto 2014 lancei o site ocadernodereceitas.com.br e inclui nele, além dos testes de receitas, entrevistas com chefs para entender como a comidinha da mãe (ou do pai, da avó, do avô, da tia…) marcou suas infâncias, crônicas sobre comida afetiva e dicas para quem, como eu, quer ganhar mais autonomia na cozinha.

Quantas receitas de família já reuniu? Comecei com as 200 receitas do caderno da minha mãe. Depois recebi três cadernos que foram da minha avó materna, Viquinha. Destes quatro, já fiz 56 testes. Mas publico também receitas da família dos outros, principalmente as passadas pelos chefs que entrevisto. Vez ou outra também  publico receitas de outras fontes, como livros.

Como a mesma receita pode ter significados diferentes para diferentes famílias?Ela está associada aos momentos em que a família a preparou, então certamente pode ter significados diferentes. Minha mãe faz uma farofa doce que, para mim, tem gosto de festa: geralmente é servida em ocasiões especiais, como o Natal. Publiquei a receita no site uns três meses atrás e recentemente recebi uma mensagem da autora de um blog chamado A Taste of Brazil, que se mudou dos Estados Unidos para o Brasil e tenta entender pela cozinha um pouco do nosso país. Fiquei muito feliz ao saber que ela preparou e adorou a farofa da minha mãe. Está criando novas histórias com um prato tradicional da minha família.

Outra história: na infância da chef Lais Duo, do Via Emilia Piadineria, capelete in brodo era o prato da avó preparado em mutirão pela família no Natal e servido fumegante no calor do verão paulistano. Adulta, a chef morou em Milão e descobriu que também na Itália esse era um prato tradicional de Natal — no inverno. As sensações ligadas à sopa certamente eram diferentes para as crianças de lá e de cá.

 

Você sente que os movimentos gastronômicos influenciam as receitas de família ou vice-versa? Os cadernos da minha família têm algumas receitas “datadas” — ou nostálgicas. Mousse de gorgonzola, por exemplo: eu ainda amo, mas não diria que está na moda. Há aquelas, como gelatina mosaico, cheia de cubinhos coloridos, que poderiam estar no verso de embalagens de produtos industrializados como leite condensado — e algumas provavelmente estavam. A forma como a indústria modificou hábitos alimentares e a doçaria nacional é, aliás, tema de um livro que ganhei recentemente: Dos Cadernos de Receitas às Receitas de Latinha, de Débora Oliveira.

Uma atualização que faço sempre é diminuir o açúcar das receitas. Como os doces eram doces! Existe uma espécie de mito da avó saudável, mas, para testar alguns pratos antigos, uso muito açúcar, farinha branca e gordura saturada (Vale lembrar que as preparações mais simples do dia a dia, como arroz, feijão, legumes e grelhados, não estão nos cadernos.)

De qualquer forma, a cada novo teste ganho autonomia para comer e dar ao meu filho exatamente o que quero. Em um dia, preparo uma torta de banana (doce, mas feita de fruta de verdade, ao contrário de muita coisa que se compra pronta por aí).  Em outro dia, faço uma sopa fresca de legumes ou uma gelatina de suco de laranja espremido na hora.

 

O que você pretende com o curso? Quero incentivar os participantes a trazer para o dia a dia pratos que são importantes nas suas histórias familiares. Além de ensinar receitas, pretendo discutir a importância da cozinha em nossa memória. Sou uma jornalista que gosta de comer bem e percebe que boas histórias surgem à mesa — algumas dessas histórias vamos carregar pela vida toda. Não sou chef, não sou cozinheira, mas aprendi alguma coisa nesses quase dois anos do projeto O Caderno de Receitas e quero compartilhar também fora do site. O cardápio tem alguns dos pratos gostosos que aprendi nesse período e pode funcionar bem na Semana Santa: biscoitos de parmesão para petiscar, bacalhau cremoso, mousse de chocolate e sangria (farei também bolo de fubá para levar para casa).

Você incorpora receitas de leitores? Já faço isso no Instagram, divulgando fotos de cadernos de receitas de outras pessoas, e pretendo fazer em breve também no site.

As receitas de família são sempre são de confort food? Elas sempre transmitem emoções?O ato de preparar algo para alimentar quem amamos, mesmo que seja uma omelete rapidinha, sempre transmite uma emoção. É cuidar, é afeto.